Conto — MALUCO BELEZA: ISSO NÃO É SÓ UM PÉ DE PLANTA!

Como no ditado popular “de médico e louco todos temos um pouco” — é cada um, na sua, — o senhor não acha doutor?  — Olhe para mim! — Não fiz mal a quase ninguém — como naquela canção… — Se bem que fiz aos meus pobres pais…

O meu pai já é “velhinho”, quase não enxerga direito, nem pode fazer os trabalhos da roça, mas é um homem sábio, tem bom coração, também, sabe ser caridoso, é sua marca registrada, não deixa ninguém padecer por necessidade. Ele, é a salvação da vizinhança carente.

E agora isso, — poxa! — essa situação é vergonhosa.

Tem mais uma, doutor, por isso, — dizem, que palavra de mãe não falha.

Mamãe bem que avisou! — “devolva essa moto meu filho, a pessoa que comprou deve ter trabalhado muito para pagar, — Deus não aprova isso!” — disse ela limpando os óculos.

É impressionante a capacidade das mães, sobretudo, de ver o mal feito da gente. — Pensei… como ela soube?  A moto poderia ser minha mesmo, ou emprestada de alguém…

Mas, como ela sacou tudo no ato? E, com razão… — Como eu poderia comprar uma maquina daquelas, ainda mais, que era bem nova?

Todos da minha família sabe, que meu trabalho é só bico, —não posso comprar nem as próprias camisas. Se ando bem-vestido, porque é presente das minhas irmãs, — sempre me deram de tudo…   — que ingratidão com elas, também.

O pior, é que elas sempre me defendem. Acredita? São elas que estão bancando despesas com advogado para mim…

Minha “mana” mais velha, hoje é uma moça que tem tudo.  Trabalhou muito e estudou demais…  —-desde muito jovem, — foi esforçada. — Ela serve de inspiração para qualquer um.

Entendo, quando o senhor diz, porquê?

Bem! É muito simples doutor, vou lhe contar… Faço essa resenha para o senhor. Temos todo tempo do mundo, não acha?

Desde moleque, sempre fui muito “arteiro”… — Gostava de sair com colegas, depois do horário do colégio, pulávamos os muros das casas dos ricos — pois, sempre dava para saber que não tinha gente lá.

Era demais, nadar naquelas piscinas limpas, pisar nos gramados verdes. Impressionante como pode ser tão verde as gramas das casas dos ricos!

Penso que é de onde vem o ditado “a grama do vizinho é sempre mais verde” — Julgo que o autor dessa frase, seu quintal fazia divisa com endinheirado…

Cresci assim…

Eu era bom de escola, já fazia poesia para meninas da oitava série… — sempre as professoras me chamavam de poeta, — esse garoto tem um grande futuro, diziam.

Também, desde novo já ouvia as músicas do Raul Seixas…  Eu curto as letras, gosto de todo o repertório dele. — Penso que até me inspirou a puxar erva. Só que não! (mais ou menos) doutor — disse rindo…

Foi assim! Tive de tudo, desde a minha infância, a minha família é pobre, mas não passamos por necessidades. Meu pai era provedor competente e mamãe muito econômica.

Hoje! Posso lhe afirmar sem dúvidas, estou aqui por mim mesmo…

Que nada desse negócio de exclusão social! Os cambaus…

O fato que me viciei muito cedo, e nunca larguei…

Já meus colegas daqueles tempos, hoje, são todos pais de famílias, tem uns que são políticos e outros advogados, eram todos do mesmo bando.

Quer saber o porquê não fui para faculdade? — pior que fiz vestibular e passei… Até ganhei uma bolsa de estudo e tudo mais… Adivinha doutor? — sociologia. — disse rindo.

Minha mãe, na ocasião que soube que eu tinha entrado para universidade, não sabia o que essa era tal sociologia… Perguntou-me, — que doutor eu seria depois de formado.

Pobre mãe!  

Como explicar para ela? — na ocasião lhe disse, é simples “mainha”, —serei professor de faculdade, depois de formado. — E ela, — com as mãos postas, “que Deus lhe abençoe meu filho!” — Rezou.

Notei que foi de coração, — seus olhos estavam cheios de lagrimas — Isso é de cortar o coração da gente, até hoje, quando me lembro disso.

O que aconteceu depois? Ué! (Combinação) fatal doutor…  — Disse depois de um longo sorriso.

Falando sério! O fato é que me liguei demais na parada da erva … — Não conseguia fazer nada, se não estivesse chapado.

Comecei faltar nas aulas na faculdade, minha concentração era mínima, não passei nem do segundo semestre…

Na verdade, me dediquei na plantação…  Melhor seria, que tivesse escolhida à botânica ao invés da sociologia.

Com o tempo, aprendi sobre à Canábis — “Cannabis sativa é uma planta herbácea da família das Canabiáceas”, com muita profundidade, assim como, as técnicas para cultiva-la em ambiente doméstico.

Minha motivação principal para esse empreendimento, foi devido as minhas condições financeiras. Eu não tinha dinheiro para adquirir uma erva de boa qualidade, de forma que fui compelido a plantar e manter uma roça dentro de casa… — disse rindo.

Essas plantas, — explicou —— são muito delicadas para se cultivar, são exigentes quanto à quantidade de luz e temem o excesso de umidade, de maneira que, é preciso muito cuidado para se produzir um material de qualidade.

E tem mais, o senhor sabe?,  — que somente as plantas fêmeas, são boas para fazer a erva…

Então! Tem tudo isso… Além do processamento cuidadoso,  para se garantir a qualidade do produto final.

Acredite doutor! Cultivar a planta e processar à maconha, não é coisa para amadores.

Por sorte, no dia da minha prisão em casa, os “homens” só acharam um vaso com uma única planta, que estava na minha varanda dos fundos. — pior, que era a minha favorita!

Se soubessem, porém, da minha pesquisa de campo, que mantive lá na fundiária do sítio da família, estaria frito! — e tem mais, — se o meu velho descobrisse sobre aquela minha estufa do sitio? — Ele me mataria com certeza.

Então, penso que é galho fraco para o senhor, doutor!

Só tem esse lance da maldita moto roubada, que comprei por 2 mil reais. Entretanto, entendo que isso por si só, não me traria para cá, não!

Mesmo porque, fui terceiro de boa-fé neste negocio de receptação, coisa que o próprio ladrão confessou…  — ele me enganou direitinho …  dizendo, que estava vendendo barato devido os documentos (impostos) estarem atrasados, e que eu poderia usa-la no sítio, desde que não rodasse por rodovias, — ficaria bem… — por isso, nunca se deve confiar em malandro de boca de fumo.

Até então, minha vida estava indo tudo as mil maravilhas… Esta viagem da cidade para mato, seria o melhor de dois mundos para mim. 

Enfim, poderia cuidar da minha lavoura ostensiva na lá no sítio, fumar um produto de qualidade…  e ainda,  rodar com maquina nova até o bolicho da linha rural. — “bar de beira de estrada”,  — onde comprava mantimentos para família.

Penso que o meu galho está naquele vaso de planta. Imagino que senhor viu-o? Que beleza de planta! Está lá na sala do delegado… — Os carcereiros me disseram, até hoje, — “verdinha” e perfeita, uma belezura…

Fico com pena da coitada, sem receber a luz de que necessita e água na quantidade certa, deve morrer logo… — é lamentável… eu tinha muitos planos para as sementes dela.

Sabe doutor! Existem varias espécies de canábis, e, esta em particular, fora a que mais se adaptou ao nosso clima e a umidade da região. Daria sementes da melhor qualidade! Seria a matriz para minha lavoura.

Caramba! — Cuidei com carinho desde o primeiro broto, — como se cuida dum filho da gente. Ainda mais, que foi difícil conseguir a semente, — veio direto do México, comprei pela “deep ‘web’”, — aguardei ansioso, por mais de dois meses para chegar.

Foi muito investimento, acredite!

No fundo, doutor! Tenho duas preocupações… Veja se o senhor poderia me ajudar.

A primeira é que estou perdendo um tempo precioso, tenho que sair logo daqui, porque, preciso continuar os trabalhos de pesquisas lá no sítio.

Depois, tenho de reaver os meus dois mil reais que paguei pela moto roubada, porque é meu capital para custear minha operação.

Esse meu dilema doutor!

Não estou reclamando da comida e o povo aqui é bem bacana…

O que me doí mesmo, é saber que a “coitadinha” está morrendo lá na sala do delegado, com aquele ar condicionado, é um veneno para ela. ©Elizeu NVL.

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